A IGREJA CATÓLICA NA IMPRENSA


18/02/2013


JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO (18/02/2013)

TRANSIÇÃO NA IGREJA

Data provável do conclave é 10 de março

Vaticano pode mudar regra que manda observar entre 15 e 20 dias como "sede vacante", o período sem o pontífice

Papa Bento 16, que renunciou, despede-se dos cardeais no dia 28 de fevereiro e embarca para Castel Gandolfo

CLÓVIS ROSSIENVIADO ESPECIAL A ROMA

A mais provável data para o início do conclave que elegerá o sucessor de Bento 16 passou a ser 10 de março.

É o que informa Robert Moynihan, editor de "Inside the Vatican", considerada a mais bem informada revista católica do mundo em assuntos do Vaticano.

A data faz todo o sentido, se se considerar que o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, adiantara que uma antecipação era viável desde que todos os 117 cardeais eleitores já estivessem em Roma até o fim do mês.

Há muitos motivos para que essa presença maciça ocorra até o dia 28, a data em que o papa se despede dos cardeais e, às 17h (13h em Brasília), toma o helicóptero que o levará a Castel Gandolfo, usualmente a residência de verão dos papas.

Primeiro, começou ontem uma série de meditações diárias, que irão até dia 23, das quais participará o próprio papa. Os especialistas dizem que esses encontros servem para apontar os rumos desejados para a igreja pelo papa e por pelo menos um dos "papabili", Gianfranco Ravasi, que conduz as meditações.

Aliás, "Vatican Insider", boletim do jornal "La Stampa", anunciou ontem que o cardeal Tarcisio Bertone, o segundo na hierarquia do Vaticano, designou Ravasi como seu candidato a papa.

É natural que os cardeais queiram participar de pelo menos parte das meditações.

Segundo e principal ponto: todos os cardeais, eleitores ou não, hão de querer se despedir do papa tanto na cerimônia pública do dia 27, como na particular do dia 28.

Se todos os cardeais estarão em Roma, como parece provável, e se não há, desta vez, a necessidade de observar nove dias de luto pela morte do pontífice, como aconteceu na eleição anterior, o Vaticano pode mudar a regra que manda observar um mínimo de 15 e um máximo de 20 dias como "sede vacante" -ou seja, sem um papa no comando. A "sede vacante" começa dia 28.

O risco da antecipação é abreviar o período de consultas prévias para filtrar os "papabili". Se os cardeais entrarem para o conclave sem algum consenso prévio, a escolha pode se alongar demais -e deixar ainda mais exposta a divisão da igreja

Escrito por marcelosl64 às 11h59
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO (18/02/2013)

Inimigo do relativismo, papa deixa uma herança maculada

DAVID GARDNERDO “FINANCIAL TIMES”

A fragilidade do homem de 85 anos que renunciou, por razões de saúde, ao cargo de 265º bispo de Roma não condiz com sua reputação merecida de dogmatismo.

Visto, com razão, como teólogo sutil, este papa em muitos momentos passou a impressão de que seu ponto forte real era o fato de ser estudioso do poder.

Inimigo contumaz do relativismo moral e guerreiro cultural militante, o papa Bento 16 teve um impacto enorme sobre a Igreja Católica, impacto esse que antecede de longe sua permanência relativamente breve no trono de São Pedro.

Bento ocupou com firmeza a linha de continuidade a partir de João Paulo 2º, o papa polonês de quem foi confidente e implementador, governando com centralismo férreo para impor a ortodoxia e reverter o processo de modernização iniciado pelo Concílio Vaticano 2º.

Karol Wojtyla, que emergiu do conclave de cardeais em 1978 como papa João Paulo 2º, fez de Joseph Ratzinger, teólogo bávaro com pouca experiência pastoral, primeiro cardeal e depois chefe da Congregação para a Doutrina da Fé. Esta é a instituição do Vaticano sucessora da Santa Inquisição; seu trabalho consiste em velar pela ortodoxia.

O cardeal Ratzinger investiu contra a Teologia da Libertação, na América Latina, e os teólogos jesuítas na Europa, atacando o feminismo e o homossexualismo e, aparentemente, pensando que os excessos do primeiro teriam levado ao segundo, ao confundir as diferenças entre homens e mulheres.

A rigidez dele e de João Paulo 2º os levou a tentar sufocar as discussões sobre os padres casados e o celibato, a ordenação de mulheres, a contracepção e o aborto.

O cardeal Ratzinger ocupou essa posição por 25 anos, até suceder a João Paulo, em 2005 -tempo mais do que suficiente para moldar as instituições da Igreja Católica, mesmo que não o mundo real dos fiéis católicos, no formato que queria.

A Igreja Católica Romana, com cerca de 1,2 bilhão de seguidores em todo o mundo, é uma força espiritual potente e uma instituição singularmente poderosa.

O papa procurou blindá-la com as certezas doutrinais de um militante clerical.

Houve momentos em que a impressão que se tinha era que ele estava competindo com as certezas inequívocas e aparentemente concentradas do islã.

A guerra do papa Bento contra o relativismo parece ser incapaz de traçar distinções entre os crimes mais hediondos e divergências discutíveis em que a fé discorda da razão -estas, a matéria-prima da teologia. Será que isso agora poderá mudar?

Os eleitores papais são um pouco como o FMI ou o Banco Mundial no fato de terem uma representação desproporcional de europeus, geralmente escolhidos por seu conservadorismo (cerca de um quinto é de italianos, e quase dois quintos são burocratas do Vaticano).

Os cardeais da América Latina, África, Ásia e do Oriente Médio com frequência são mais conservadores, de qualquer modo.

Os papas Bento e João Paulo parecem ter conseguido encher com seus escolhidos o colégio de cardeais que vai eleger o novo papa, mas o absolutismo deles pode acabar por criar mais católicos apenas culturais que os católicos da espécie teologicamente correta que pretendiam.

Escrito por marcelosl64 às 11h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

17/02/2013


O GLOBO - 17/02/2013

Uma Sé nada Santa

ROMA — O Papa Bento XVI, ao anunciar sua renúncia, provocou um cataclismo no Vaticano. E agora? Seus detratores viram o gesto como a reação de um homem que não teve punho para governar uma Igreja tomada por disputas, carreirismo e escândalos. Mas outros viram um gesto revolucionário. Consciente de seu isolamento, e sentindo o peso da idade, Bento XVI deu o passo impensável para provocar justamente o que buscava: um choque de mudanças na Igreja e na Cúria Romana — o conjunto de órgãos e pessoas que o auxiliam e que, no fundo, governam o Vaticano e a Igreja. Vaticanistas têm apontado o centro de poder da Santa Sé como o palco onde se desenrolou o drama que levou a um desfecho há 600 anos não visto: a abdicação do Pontífice.

 

Salvatore Izzo, especialista em Vaticano da Agência Itália, é um dos que endossam esta tese:

— É certo que um Papa não governa sozinho. E as divisões na Cúria são evidentes, em parte porque ela se tornou ingovernável.

Izzo vê três motivos que, juntos, levaram à renúncia do Papa. Aos 86 anos, Bento XVI alegou que não tem mais força física, de alma e de mente.

— Essa falta de força de alma, numa tradução objetiva, significa que ele não se sentiu suficientemente apoiado (na Cúria) — diz Izzo.

Salvatore Mazza, do jornal católico “Avvenire”, e que conhece Joseph Ratzinger desde 1982, assegura que pesou muito o problema físico.

— O Papa voltou morto da viagem ao México e a Cuba e estava com muito medo da viagem ao Brasil (para a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio) — avalia Mazza, que questiona a ideia de que Bento XVI estava isolado após a descoberta de escândalos. — Ele sabia o que tinha que fazer e fez. E no momento da decisão final, um Papa está sempre só.

Rebelião contra o braço direito do Papa

Mazza lembra que, com 25 anos de Cúria, Bento XVI conhecia as disputas e os problemas do Vaticano. O Pontífice encontrou resistências, sustenta o vaticanista, mas um homem que pregava a reforma da Cúria não tinha medo:

— Não vejo um Papa que se demitiu porque foi vencido.

Para Izzo, outro fator pesou forte. Num Vaticano contaminado pelo carreirismo, o Papa enfrentou uma revolta de cardeais contra o homem que escolheu para cuidar do dia a dia da Cúria: Tarcisio Bertone, secretário de Estado e braço direito do Papa quando ele chefiava a Congregação para a Doutrina da Fé. Bertone “é um salesiano que, quando quer fazer algo, vai adiante”, explicou Izzo. Esse jeito de resolver e simplificar as coisas provavelmente criou incidentes e frustrações, por exemplo, em nomeações de bispos ou cardeais.

— Houve revolta contra Bertone, por questões de poder. Durante meses, muitos cardeais foram ao Papa pedir sua substituição. E isso chateou muito o Papa, que confia em Bertone e não via razões objetivas (para substituí-lo).

Nos oito anos de Papado, portanto, dois homens se digladiaram no centro da Cúria: Bertone e Angelo Sodano, seu antecessor na secretaria de Estado. Decano do Colégio dos Cardeais, Sodano recebia as queixas dos cardeais e as levava ao Papa. Com a renúncia de Bento XVI, espera-se uma intensificada batalha de influência: será Sodano quem vai ajudar os cardeais a se prepararem para a votação.

Izzo também vê uma intriga de “dois ou três cardeais, talvez mais” no escândalo VatiLeaks — o roubo de documentos secretos do Vaticano pelo mordomo do Papa, Paolo Gabriele. O grande golpe por trás disso, segundo ele, não era contra o Papa, mas sim contra Bertone.

— Gabriele estava sendo usado por cardeais, e o Papa teria tido um grande desprazer com isso. Para um cardeal, é difícil estar contra um Papa, até por motivos psicológicos. A hostilidade era contra Bertone. Mas o Papa recebeu isso como uma hostilidade contra ele — diz Izzo.

Anunciada a renúncia do Papa, uma espécie de ajuste de contas teria começado. De acordo com o jornal “La Stampa”, o primeiro sinal é a saída de Marco Simeon, responsável pela Rai Vaticano. Protegido de Bertone, Simeon era considerado uma pessoa intocável até a semana passada.

Mas foi a limpeza conduzida pelo Papa após casos de pedofilia que, para Izzo, foi um fator central.

— O Papa foi odiado por tantos… Pelos culpados, mas também pelos que são da velha escola do laxismo (que defende pouco rigor nas punições).

A crise na arquidiocese de Los Angeles por conta de escândalos de pedofilia foi um dos estopins. O Papa nomeou para a arquidiocese José Gómez, que barrou seu antecessor, o cardeal Roger Mahony, de ações públicas, após descobrir que ele escondeu 129 casos de abuso envolvendo padres. Gómez fez a limpeza com o apoio de Bento XVI.

— Isso causou insatisfação entre vários cardeais, porque o direito canônico não prevê esta possibilidade. Um cardeal não pode ser encostado assim, só pelo Papa. É uma das razões pelas quais o Papa acabou isolado.

Mazza, do “Avvenire”, diz que a gestão interna dos escândalos da pedofilia revelou em Bento XVI um Papa revolucionário:

— O Papa não pode exonerar um bispo que acobertou pedófilos. O código só considera que isso pode ser feito por motivo grave contra a confissão da fé. A pedofilia é um ato gravíssimo, mas não é contra o ato da fé. O Papa introduziu mecanismos que levam um bispo a pedir demissão.

Outro vaticanista, Marco Politi, tem uma visão radicalmente oposta. Num artigo de 2012, intitulado “Ratzinger rumo ao crepúsculo”, ele concluiu que o pontificado de Bento XVI vai ser marcado pela estagnação. O Papa falou em reforma da Igreja, “mas não deu respostas concretas”. Está melhor no papel de teólogo e pensador, mas não de um Papa: o peso da Santa Sé na cena mundial “se calou drasticamente”, escreveu Politi.

Escrito por marcelosl64 às 12h12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O GLOBO - 17/02/2013

BENTO XVI PEDE QUE CATÓLICOS ABANDONEM O EGOISMO

Da sacada de seus aposentos, Papa faz a primeira bênção dominical desde o anúncio de sua renúncia

 

O GLOBO

COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

 

CIDADE DO VATICANO - Na primeira bênção dominical desde o anúncio de sua renúncia, o Papa Bento XVI disse que a Igreja “chama todos os seus membros a abandonarem o orgulho e o egoísmo, e viverem no amor”. A multidão que se aglomerou nesta manhã na Praça de São Pedro gritava “Vida longa ao Papa!", enquanto o Pontífice falava da janela de seus aposentos. O Papa deixará o comando da Igreja Católica no dia 28 de fevereiro.

— A Igreja convoca todos os seus membros a se renovarem, o que envolve uma luta, um combate espiritual, porque o espírito do mal quer nos desviar do caminho em direção a Deus — afirmou.

Diante da multidão, ele disse em espanhol:

— Eu peço que continuem orando por mim e pelo próximo papa.

 

Discursando em italiano, em parte de seu discurso sobre a Quaresma, o Papa falou sobre a dificuldade de tomar decisões importantes.

— Em momentos decisivos da vida, ou melhor, em cada momento da vida, estamos numa encruzilhada: queremos seguir o "eu" ou Deus, o interesse individual ou o bem real, o que é realmente bom? — questionou.

Bento XVI também agradeceu pelas “orações e suporte que foram demonstrados” pelos fiéis e fez votos para que a "contemplação da paixão, morte e ressurreição de Cristo nos ajude a segui-lo mais de perto".

A tradicional oração do Ângelus, e a penúltima cerimônia a ser celebrada por Bento XVI, atraiu neste domingo uma multidão estimada em mais de 50 mil fiéis na Praça São Pedro. A prefeitura de Roma colocou mais trens e ônibus em circulação para atender os fiéis, e está oferecendo transporte gratuito para idosos e deficientes. Chá quente gratuito também está sendo preparado para ajudar a combater o frio desta época do ano.

Às 18h deste domingo no horário de Roma (14h de Brasília) o Papa irá se retirar para a realização de exercícios espirituais que devem durar toda a semana — algo que já estava previsto para o período da Quaresma.

 

Escrito por marcelosl64 às 12h08
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

FOLHA DE SÃO PAULO 17/02/2013

CLÓVIS ROSSI

A igreja, o papa e a democracia

A fé pode sobreviver por outros dois milênios e até mais, mas, sem se abrir, o papado perde força

ROMA - Suzana Singer, a competentíssima jornalista e ombudsman desta Folha, cobrou, na quinta-feira, em sua crítica interna: "Falta tentar mensurar o tamanho do poder do papa. Qual a sua real influência fora do mundo clerical?".

Coincidência, Suzana, mas eu vinha pensando nisso desde a segunda-feira em que aFolha me cortou as férias para cobrir a renúncia de Bento 16. Só sinto que minha soberba ainda não tenha chegado ao ponto de achar que posso responder.

Uma única resposta me parece óbvia: só uma instituição muitíssimo poderosa poderia resistir impávida a dois milênios de história, crises, confusões, guerras, paz e tudo o mais, segurando, hoje, 1,2 bilhão de fiéis. A mensagem, a Palavra, é, pois, tremendamente poderosa, ainda mais se se considerar que Cristo é também o eixo de sustentação de milhões mais que preferem outras denominações, e não a católica.

Mesmo as novas igrejas evangélicas, que estão roubando público do velho catolicismo, o fazem vendendo a sua interpretação da palavra de Deus -e o verbo vender vai mesmo sem aspas, que você me entende. Outra coisa, no entanto, é dimensionar "o tamanho do poder do papa". Eu não sei. Talvez nem seja mensurável.

Minha sensação, no entanto, é a de que os papas vêm perdendo apelo contínua e crescentemente. OK, sensações são traiçoeiras, mas já escrevi bastante tempo atrás, em outro espaço desta Folha, que viagens de João Paulo 2º ao Brasil, por exemplo, podem ser um enorme sucesso de público, atos de "pop star", mas seus efeitos desaparecem assim que o papa sobe as escadas do avião para ir-se embora.

Se ele convertesse os não crentes, o número de fiéis subiria no Brasil, em vez de cair, antes e depois das várias visitas do anterior e do atual papa. Por quê? É tema para sociólogos e antropólogos, não para meros repórteres.

A minha sensação -e, repito, sensações são traiçoeiras- é a de que algo tem a ver com democracia, com a arquicitada frase "Roma locuta est, causa finita est", ou seja, com o espírito predominante na hierarquia católica segundo o qual, se Roma falou, não cabe mais discutir questões doutrinárias.

O avanço da ideia das liberdades públicas tornou obsoleto esse "diktat" imperial, erroneamente atribuído a santo Agostinho. O próprio Bento 16 produziu uma frase, na audiência com os párocos de Roma, na quinta-feira, que renega essa verticalidade tão absoluta: "Nós, cristãos, somos todos o corpo vivo de Cristo".

Corpos vivos querem participar, querem ter voz em tudo o que diz respeito às suas vidas e às de suas comunidades. De alguma forma, o Concílio Vaticano 2º, que está completando 50 anos, abriu a igreja para esse caminho, mas ele foi fechado nas décadas seguintes, especialmente com João Paulo 2º e Bento 16.

Resta saber se o Colégio de Cardeais preferirá a inércia de acreditar que o que durou dois milênios durará para sempre do jeito que está ou reabrirá o caminho para que os fiéis deixem de ser súditos e se sintam de fato parte do "corpo vivo de Cristo".

Escrito por marcelosl64 às 11h43
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

FOLHA DE SÃO PAULO 17/02/2013

TRANSIÇÃO NA IGREJA

Cardeais brasileiros têm perfil discreto

Geração nomeada nos papados de João Paulo 2º e Bento 16 lida com novos desafios; país perdeu protagonismo

Entre os 5 cardeais brasileiros que irão votar, os 2 mais jovens têm sido lembrados para suceder a Bento 16

FABIANO MAISONNAVEDE SÃO PAULO

 

Com perfil mais discreto do que os seus antecessores, cinco cardeais brasileiros participarão da escolha do novo papa da Igreja Católica, no Vaticano. Desse grupo, os dois mais jovens têm sido lembrados por especialistas para suceder a Bento 16.

"Há uma nova geração na cúpula da Igreja Católica brasileira", afirmou, em entrevista por telefone, o historiador americano Kenneth Serbin, autor do livro "Diálogos na Sombra", sobre as relações entre a igreja e militares durante a ditadura.

"Dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Câmara, entre outros bispos fortes, foram ordenados numa época de abertura da igreja. Apenas [o cardeal] dom Cláudio Hummes pertence a essa geração anterior. Os bispos mais jovens foram nomeados no papado de João Paulo 2º e Bento 16", diz.

"Mudou a história do mundo, a história do Brasil, e eles lidam com desafios diferentes. Nos anos 1960, ninguém falava de homossexualismo."

Três dos cinco cardeais brasileiros foram nomeados no papado de Bento 16: o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, 63, em 2007, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno Assis, 76, em 2010, e o ex-arcebispo de Brasília João Braz de Aviz, 65, que ascendeu há cerca de um ano.

Os nomeados sob João Paulo 2º são o arcebispo emérito de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo, 79, e o arcebispo emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes, 78, ambos em 2001.

Mais jovem entre os brasileiros, o gaúcho Scherer tem uma sólida formação acadêmica, que inclui um doutorado em teologia em Roma, e é arcebispo de São Paulo desde abril de 2007, sete meses antes de ascender a cardeal.

No ano passado, Scherer se envolveu em uma polêmica em torno da escolha do novo reitor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica).

Na condição de grão-chanceler da universidade, função que acumula com a do arcebispado, escolheu a menos votada de uma lista tríplice enviada pelo Conselho Superior da instituição, decisão prevista no regulamento.

"Num mundo que parece esquecer-se de Deus, uma universidade católica tem uma importante função social, também como contribuição para o pluralismo e a liberdade de pensamento. E isso não parece irrelevante para o convívio democrático!", escreveu em artigo na Folha em 7 de dezembro.

A escolha teve forte oposição dentro da PUC. Alunos de direito entraram na Justiça e chegaram a conseguir uma liminar suspendendo a nomeação de Anna Cintra, derrubada dias mais tarde.

Morando no Vaticano, o catarinense Braz de Aviz comanda a importante Congregação para a Vida Sagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Fundada em 1586, é responsável pelo regime e pela disciplina de ordens, congregações religiosas e institutos seculares, entre outras organizações da igreja.

Questionado sobre se é possível classificar os cardeais brasileiros entre conservadores e progressistas, Serbin diz que se trata de uma "divisão artificial".

"Somos nós, historiadores, jornalistas e sociólogos, que criamos essa divisão. Como pude constatar na minha pesquisa, havia progressistas com posições tradicionais e conservadores com posições bem progressistas. Essa divisão não ajuda a traçar um perfil correto do clero atual."

Com relação à importância do Brasil dentro da igreja, Serbin diz que o país perdeu protagonismo: "Nos anos 1960 e 1970, era atuante, criava a Teologia da Libertação e estava à frente da igreja mundial. Hoje não se vê mais essa liderança".

Escrito por marcelosl64 às 11h41
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

FOLHA DE SÃO PAULO 17/02/2013

TRANSIÇÃO NA IGREJA

Sacerdote coordena 12 igrejas no Amazonas

Padres recebem auxílio de leigos na condução de paróquias no país

Católicos investem na formação de indígenas como religiosos nas regiões de difícil acesso perto da fronteira

KÁTIA BRASILDE MANAUS

 

Faça chuva ou faça sol, o padre amazonense Geraldo Bendaham, 45, viaja de barco pelo rio Negro ou de carro por vias de terra batida das rodovias para celebrar missas, casamentos ou batizados nas 12 igrejas que coordena em comunidades ribeirinhas da zona rural de Manaus.

Há cerca de quatro anos ele é o único padre da paróquia de Nossa Senhora das Graças, no bairro Colônia Antônio Aleixo, zona sul da cidade. A paróquia tem cerca de 2.000 fiéis ribeirinhos.

Bendaham afirma que chega a celebrar seis missas e que a paróquia precisaria de ao menos dois padres para suprir o deficit atual.

Formado em teologia e comunicação social, o padre estudou dois anos em Roma antes de assumir a paróquia, em 2009. Ele diz que nas igrejas mais distantes só celebra missas duas vezes por mês.

Devido à falta de padres, conta com a assistência de um diácono. Bendaham diz que os ministros leigos, catequistas, também auxiliam na pregação.

"Nós queríamos mais padres. Mas como não tem, a celebração da palavra de Deus é feita pelos diáconos e pelos leigos", diz.

Segundo o bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, dom Mário Antônio da Silva, 46, em Manaus existem 90 paróquias e cerca de cem padres. A igreja tem cerca de 40 diáconos. Ele afirma que a falta de padres nas igrejas não é uma questão nova.

"Sempre percebemos que há necessidade de mais vocações. Isso não significa que o número seja puro e simplesmente insuficiente. A Igreja sempre fez um apelo. Deus nunca deixa de chamar. Nem sempre o ser humano se dispõe a responder à altura."

FRONTEIRA

Há quatro anos dom Edson Damian, 65, é bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira (860 km de Manaus), na fronteira com a Colômbia. Segundo ele, das 10 paróquias na região, 7 ficam em locais de difícil acesso, no meio da floresta amazônica.

Sacerdotes são deslocados da cidade para a paróquia de Pari-Cachoeira. Viajam três dias de barco pelo rio Negro e seus afluentes. A diocese tem ao todo 18 padres e tem um deficit de dois sacerdotes.

"As paróquias estão muito distantes uma das outras. Devido ao isolamento, precisaríamos de dois padres em cada paróquia."

Com cerca de 90% da população (cerca de 38 mil pessoas) de São Gabriel formada por índios, dom Damian diz que a Igreja Católica tem investido na formação de indígenas. Dos 18 padres atuais, quatro são índios. Outros sete seminaristas indígenas estão estudando teologia em Manaus.

"Não temos padres suficientes, não temos recursos. Ordenar um padre indígena é um grande bem. Quando se trata de evangelização na cultura indígena, quem vai realizá-la mesmo é o clero local, que conhece a cultura."

Escrito por marcelosl64 às 11h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

FOLHA DE SÃO PAULO 17/02/2013

ANÁLISE

Existem "progressistas" no conclave que vai eleger o novo papa?

Hoje, chamamos de 'progressista' o católico que achar que são exageradas as opiniões de bento 16 sobre o uso da camisinha

MARCELO COELHOCOLUNISTA DA FOLHA

 

Vejo a lista dos possíveis sucessores de Bento 16, com os rótulos de sempre: "conservador", "de centro", "progressista". Quase nenhum "progressista", aliás: dos nomes que vêm aparecendo na Folha, apenas o cardeal Maradiaga, de Honduras (ao lado do "liberal" Schönborn, arcebispo de Viena), quebra a hegemonia de centro-direita.

Existem ainda "progressistas" na cúpula da igreja? O conclave para escolher o próximo papa conhecerá um embate entre "conservadores" e "progressistas"?

A resposta parece ser predominantemente negativa. Depois de 30 anos de domínio de Ratzinger e de João Paulo 2º, nada indica que tenha chegado a hora de uma revanche da Teologia da Libertação, por exemplo.

Seria de esperar que, no Brasil pelo menos, a Teologia da Libertação ainda tivesse influência entre os bispos. Mas os tempos são outros, embora nem sempre as mudanças teológicas sejam perceptíveis para quem não é religioso.

Tome-se um documento importante da CNBB (Conferência dos Bispos do Brasil), lançado não faz muito tempo. São as "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil", para o período de 2011 a 2015.

Aparentemente, estamos diante de pura fraseologia católica: o objetivo geral da CNBB é "evangelizar, a partir de Cristo e na força do Espírito Santo, como igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo".

Nada de novo, pode-se imaginar -e a manchete preferida por um jornalista seria provavelmente a de que a CNBB "mantém a opção preferencial pelos pobres", sem subordinar-se ao direitismo de Ratzinger.

Toda a diferença, entretanto, está em outro ponto. Por incrível que pareça, a marca de Bento 16 está na frase "a partir de Cristo". A "opção preferencial pelos pobres" não é problema do ponto de vista teológico.

O problema é que, antigamente, o "progressismo" falava que a ação evangelizadora surge "a partir da realidade", e não "a partir de Cristo". Tanto que uma das palavras de ordem da Ação Católica era "ver, julgar, agir".

Ou seja, se formos capazes de "ver" a realidade, saberemos o que há a fazer para torná-la mais cristã. A ênfase mudou com Bento 16 -a realidade não se oferece sozinha como "errada" ou "certa". É à luz dos ensinamentos de Cristo que podemos julgar e agir.

A sutileza, eminentemente teórica, ainda alimenta discussões. Mas o fato de que tenha entrado no documento da CNBB, com a "opção preferencial pelos pobres" posta no fim da frase, demonstra o predomínio de Ratzinger sobre o que se julgaria "progressismo" na Igreja brasileira.

Progressismo, aliás, em relação a quê? Há 30 anos ou mais, a questão era saber qual a atitude da igreja diante de revoluções de esquerda. Hoje, chamamos de "progressista" o católico que achar exageradas as opiniões de Bento 16 sobre a camisinha.

Tudo indica que as cisões do próximo conclave não são as mesmas que opõem a Igreja Católica ao conjunto da opinião leiga.

Camisinha, casamento gay, celibato dos padres e aborto podem afastar muita gente do catolicismo. Mas será que resolver esses problemas está na agenda de algum cardeal?

Se há cisões entre os eleitores do novo papa, certamente passam por outros assuntos e outros critérios (o geográfico, a importância ou não de um nome "popular", o peso da Cúria) que não esses.

Escrito por marcelosl64 às 11h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

FOLHA DE SÃO PAULO 17/02/2013

Brasil tem 'deficit' de mais de 20 mil padres

São 22 mil sacerdotes para 48 mil locais de atendimento, diz a igreja

Ausência é maior em áreas do Nordeste e do Norte; hierarquia rígida e natalidade menor são apontadas como fatores

FABIO MAZZITELLIDE SÃO PAULO

A Igreja Católica tem menos da metade dos padres de que precisaria para haver um sacerdote em cada local de celebração de missa no país, como paróquias e capelas.

No Brasil, segundo a última contagem feita pela própria igreja, em 2010, há 22 mil padres para quase 48 mil centros de atendimento religioso -locais em que as missas são celebradas, não necessariamente uma igreja.

O deficit de padres é mais acentuado em algumas regiões, especialmente em áreas do Norte e do Nordeste.

Essa defasagem é apontada por estudiosos e membros da Igreja Católica como uma das razões para a perda de espaço da religião para diversas correntes evangélicas no Brasil nas últimas décadas.

CENSO

Segundo o Censo-2010, o catolicismo é a religião de 64,6% dos brasileiros, já foi de 90% nos anos 70 e teve, pela primeira vez, queda em número absoluto de fiéis -perdeu 1,7 milhão de adeptos na década passada.

Apesar do recuo no período, os anos 2000 marcam um relativo avanço no número de padres, de 32%, e sobretudo no de diáconos, de 146%.

O diácono é um tipo de líder comunitário formado pela igreja que pode representá-la e comandar encontros.

"Houve um aumento, mas, mesmo contando os seminaristas em formação [cerca de 9.000] e os diáconos, o deficit é enorme, de mais de 20 mil", diz o filósofo Fernando Altemeyer, pesquisador de ciências da religião na PUC-SP.

"Há muitos no Sul e Sudeste e uma falta gigante na região amazônica. Sem padre, não tem missa e não tem a igreja, que é feita em torno do altar", acrescenta ele.

Enquanto o Norte tem 3% do total dos sacerdotes e 7% da população do país, o Sudeste e o Sul reúnem, respectivamente, 45% e 25% -e abrigam 42% e 14% da população, nessa ordem.

"A questão das vocações sempre foi um desafio para a igreja", diz o padre Valdeir dos Santos Goulart, responsável pelo Ceris, centro católico de estatísticas no Brasil.

"Tempos atrás, as famílias tinham muitos filhos, e era mais fácil que um deles fizesse a opção religiosa. À medida que cai o número de filhos, isso vai prejudicando o aparecimento de vocações", diz.

O celibato obrigatório e a rigidez hierárquica impostos pelo Vaticano também são apontados como explicações para o deficit de padres -entraves à renovação do clero pedida pelo papa Bento 16 dias após o anúncio da renúncia ao pontificado.

"Uma alternativa seria a ordenação de mulheres", sugere o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da PUC-SP. "Um novo papa que tivesse essa perspectiva encontraria no nosso país e em outros recepção muito positiva", diz.

O Brasil tem 33 mil freiras -7% a menos do que em 2000. Uma das razões apontadas para o recuo é a relação hierárquica de subordinação da mulher na igreja.

"O trabalho feminino na igreja nascia de acordo com o desafio, para cuidar de hospitais e creches, função que hoje está com o Estado", diz padre Valdeir, ponderando que a ordenação de mulheres não é cogitada pelo Vaticano.

DIOCESES

O caminho mais realista parece ser uma maior abertura para os diáconos. "Algumas dioceses não aceitam diáconos porque há resistência de padres, que os veem como competidores", diz o padre José Carlos Pereira. "Talvez o próximo papa possa orientar os bispos a aceitá-los."

Escrito por marcelosl64 às 11h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, VILA ALVORADA, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Informática e Internet, Esportes
MSN -

Histórico